Hidrelétricas a “fio d’água” e a questão ambiental – um tiro no pé!

hidreletrica

Na geração hidrelétrica a energia precisa ser armazenada sob a forma de água nos reservatórios, e isto o Brasil fez muito bem no passado: a água acumulada no transcorrer do tempo em grandes reservatórios possibilitava o fornecimento de energia firme por cerca de cinco anos. Este tempo foi sendo reduzido à medida que o Brasil construía hidrelétricas a FIO D´ÁGUA, ou melhor dizendo sem grandes reservatórios, e o tempo de fornecimento de energia firme, obviamente, foi sendo reduzido chegando, hoje, a cerca de apenas cinco meses.

O Brasil, por pressão das organizações ambientais, decidiu, em passado recente, construir apenas novas usinas hidrelétricas a FIO D´ÁGUA, no lugar de grandes reservatórios que, até então, eram construídos. A razão fundamental para tal tomada de decisão foi buscar uma menor agressão ao meio ambiente pela não inundação de grandes áreas e pela redução do desmatamento de grandes grupos florestais, colocando também em risco a fauna local

Fica a pergunta: FOI UMA ESTRATÉGIA CORRETA?

Para responder esta pergunta é necessário abordar alguns aspectos.

1. O que é uma hidrelétrica a FIO D´ÁGUA?

Ao contrário de grandes reservatórios, o volume de água à montante da barragem que vai ser utilizado para girar os turbo – geradores é constituído, somente, do próprio leito do rio e mais uma pequena área inundada. Evidentemente, a energia armazenada em forma de água é muito menor, reduzindo muito a capacidade de geração durante todo o ano, tornando o processo de geração de energia mais limitado.

2. Vantagens e desvantagens das hidrelétricas de grandes reservatórios

Não se faz omelete sem quebrar os ovos. A alegada desvantagem de agressão ao meio ambiente pela formação de maiores áreas inundadas é largamente compensada pela geração de uma energia limpa. Além disto, estes grandes lagos formados não servem, somente, para o armazenamento de energia limpa em forma de água, proporcionam, também, grandes áreas irrigáveis no seu entorno para plantio de alimentos, além disto, servem para regular a vazão dos rios à jusante da barragem reduzindo a possibilidade de inundações que causam tantos problemas à população ribeirinha e servem, ainda, para a diversão e para o turismo da população que vive e visita estes grandes lagos. Uma outra vantagem é que este extenso espelho de água formado proporciona uma maior evaporação, o que leva a uma maior formação de nuvens e, conseqüentemente, ajuda na estabilização e melhor distribuição do regime de chuvas, já que o Brasil é um país desprovido de grandes lagos naturais.

3. Vantagens e desvantagens das hidrelétricas a FIO D´ÁGUA

A vantagem deste tipo de hidrelétrica está na redução de áreas alagadas o que, por conseqüência, reduz o desmatamento e protege a fauna, com o intuito de preservar o meio ambiente. A desvantagem é a menor geração de energia ao longo do ano, fora da estação de chuvas, já que o armazenamento de energia limpa em forma de água é muito menor que nas grandes barragens. O Brasil tem um percentual de 87% de energia elétrica oriunda de suas hidrelétricas – energia limpa, entretanto este percentual tem caído, consideravelmente, por falta de um maior armazenamento desta energia limpa em forma de água pelo uso de usinas a FIO D´ÁGUA – É UM ABSURDO!

4. Conseqüências desta estratégia de hidrelétricas a FIO D´ÁGUA.

O propósito de proteger o meio ambiente construindo, somente, hidrelétricas a FIO D´ÁGUA, no lugar de grandes reservatórios, tem se mostrado um verdadeiro “TIRO NO PÉ”. A menor geração de energia elétrica oriunda das hidrelétricas tem obrigado o Brasil a colocar em operação suas termoelétricas movidas a gás, a óleo diesel e até a óleo combustível, com dupla desvantagem: são mais caras e muito mais agressivas ao meio ambiente, principalmente pela grande emissão de CO2 (dióxido de carbono) – responsável direto pelo temido efeito estufa que tanto desequilíbrio vem causando ao nosso planeta afetando, principalmente, o meio ambiente que se pretendia proteger.

CONCLUSÃO: por tudo isto, podemos afirmar que esta estratégia de somente construirmos hidrelétricas a FIO D´ÁGUA está sendo equivocada e, por conseqüência, já está afetando e afetará muito negativamente as nossas vidas.

É preciso rediscutir esta estratégia com urgência antes que seja tarde demais – não podemos continuar a ouvir as justificativas de que estamos tendo, hoje, problemas relacionados a uma menor geração de energia hidrelétrica somente por razões de pouca chuva. Esta afirmativa agride o bom senso!

NÃO VAMOS ESPERAR UM MILAGRE – É PRECISO MUDAR A NOSSA ESTRATÉGIA E VOLTAR A CONSTRUIR HIDRELÉTRICAS COM GRANDES RESERVATÓRIOS.

Alan Kardec

Engenheiro mecânico e especializado em engenharia de petróleo. Cursou gestão estratégica da manutenção na Suécia. Foi gerente executivo da Petrobras – Abastecimento, sendo responsável por todas as onze refinarias do Brasil. Foi o primeiro presidente da Petrobras Biocombustível e presidente da ABRAMAN. É diretor de Gestão Empresarial da TCA.

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